🌸 Amenorreia primária e secundária: como investigar e conduzir

A amenorreia é a ausência de menstruação e pode representar desde uma variação fisiológica até alterações anatômicas, endócrinas, ovarianas ou hipotalâmico-hipofisárias.

Para o médico, o principal desafio é identificar quando a ausência da menstruação deixa de ser esperada e passa a exigir investigação, além de reconhecer rapidamente as causas que podem comprometer a fertilidade, a saúde óssea e cardiovascular.

🩺 1. Primeiro: é amenorreia primária ou secundária?

🔹 Amenorreia primária

Deve ser investigada quando:

  • Não ocorreu menarca até os 15 anos, mesmo com desenvolvimento adequado dos caracteres sexuais secundários;
  • Não há desenvolvimento das mamas até os 13 anos;
  • A menarca não ocorreu até aproximadamente 3 anos após o início do desenvolvimento mamário;
  • Ou existe suspeita clínica de alteração anatômica ou endocrinológica.

A ASRM recomenda avaliação aos 15 anos na ausência de menarca com desenvolvimento sexual normal ou quando transcorridos 3 anos desde o início do desenvolvimento mamário.

🔹 Amenorreia secundária

É a interrupção da menstruação em uma mulher que já menstruava.

Na prática, deve ser investigada quando ocorre:

Ausência de menstruação por ≥ 3 meses em mulheres previamente regulares.

Naquelas com ciclos previamente irregulares, a FEBRASGO considera como referência a ausência por 6 meses.

📌 Antes de qualquer investigação hormonal, pense em gravidez.

🔎 2. Principais causas

A amenorreia pode resultar de alterações em diferentes níveis do eixo hipotálamo–hipófise–ovário ou de alterações anatômicas.

🧠 Hipotálamo
  • Amenorreia hipotalâmica funcional
  • Baixo peso
  • Perda ponderal importante
  • Exercício físico excessivo
  • Estresse
  • Transtornos alimentares
🧠 Hipófise
  • Hiperprolactinemia
  • Adenoma hipofisário
  • Síndrome de Sheehan
  • Outras doenças hipotálamo-hipofisárias
🥚 Ovário
  • Síndrome dos ovários policísticos (SOP)
  • Insuficiência ovariana primária
  • Disgenesia gonadal
  • Alterações cromossômicas
🦋 Tireoide
  • Hipotireoidismo
  • Hipertireoidismo
🩺 Causas anatômicas
  • Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser
  • Hímen imperfurado
  • Septo vaginal transverso
  • Agenesia/atresia cervical
  • Sinéquias uterinas (síndrome de Asherman)
🧬 Alterações do desenvolvimento sexual
  • Síndrome de Turner
  • Síndrome de insensibilidade aos andrógenos

A ACOG destaca Turner, insensibilidade aos andrógenos, alterações hipotálamo-hipofisárias e malformações uterovaginais entre as causas importantes de amenorreia primária.

🩻 3. Amenorreia primária: raciocínio prático

Na amenorreia primária, três perguntas ajudam a organizar a investigação:

1️⃣ As mamas desenvolveram?

A presença de desenvolvimento mamário sugere exposição estrogênica adequada em algum momento.

2️⃣ O útero está presente?

A avaliação geralmente começa com ultrassonografia pélvica.

3️⃣ Como está o FSH?

O FSH ajuda a diferenciar alterações ovarianas de causas centrais.

A FEBRASGO destaca justamente três marcadores fundamentais na investigação: desenvolvimento mamário, presença ou ausência do útero e nível sérico de FSH.

📌 Exemplos clássicos

Mamas presentes + útero ausente

→ pensar em:

  • Agenesia mülleriana
  • Síndrome de insensibilidade aos andrógenos

Mamas ausentes ou pouco desenvolvidas + FSH elevado

→ pensar em falência/disgenesia ovariana

Mamas pouco desenvolvidas + FSH baixo ou normal

→ pensar em causa hipotalâmica ou hipofisária

🧪 4. Amenorreia secundária: quais exames pedir?

O primeiro exame é:

🥇 β-hCG

Sempre excluir gravidez.

Depois, a avaliação deve ser direcionada pela história e pelo exame físico.

Exames iniciais frequentemente utilizados:
  • TSH
  • Prolactina
  • FSH
  • Estradiol
  • LH, conforme o contexto clínico
  • Ultrassonografia pélvica

A ASRM recomenda que a avaliação inicial seja guiada pela história clínica, exame físico e exames laboratoriais direcionados, destacando gravidez, TSH, prolactina e avaliação gonadal entre os principais componentes.

Se houver hiperandrogenismo:

Considerar:

  • Testosterona total/livre
  • DHEA-S
  • 17-hidroxiprogesterona em situações selecionadas

📌 Não peça um “painel hormonal” indiscriminadamente. O exame deve responder a uma hipótese diagnóstica.

🧠 5. Como interpretar o FSH?

Uma forma prática de raciocinar:

🔺 FSH elevado

Sugere hipogonadismo hipergonadotrófico.

Pense principalmente em:

→ insuficiência ovariana primária
→ disgenesia gonadal

🔻 FSH baixo ou normal + estradiol baixo

Sugere hipogonadismo hipogonadotrófico.

Pense em:

→ amenorreia hipotalâmica
→ alterações hipofisárias/hipotalâmicas

FSH normal + estradiol preservado

Considerar:

→ SOP
→ alterações anatômicas
→ outras causas de anovulação

📌 A interpretação deve sempre ser feita em conjunto com o quadro clínico.

🩺 6. Quando pensar em hiperprolactinemia?

A prolactina elevada pode causar amenorreia por supressão do eixo reprodutivo.

Investigue especialmente diante de:

  • Galactorreia
  • Cefaleia
  • Alterações visuais
  • Amenorreia sem causa aparente

Se houver prolactina persistentemente elevada, após excluir causas fisiológicas, medicamentosas e outras causas secundárias, pode ser necessária investigação da região hipotálamo-hipofisária.

🌸 7. SOP é uma causa importante

A síndrome dos ovários policísticos está entre as causas frequentes de amenorreia secundária.

Pode haver:

  • Oligo/amenorreia
  • Hiperandrogenismo clínico ou laboratorial
  • Acne
  • Hirsutismo
  • Alterações metabólicas

⚠️ A ausência de ovulação não deve ser automaticamente atribuída à SOP.

Antes, é necessário excluir outras causas de amenorreia.

🥗 8. Amenorreia hipotalâmica funcional

É especialmente importante em mulheres jovens com:

  • Perda de peso
  • Restrição alimentar
  • Exercício físico intenso
  • Estresse psicológico

O tratamento deve priorizar a correção do déficit energético e da causa desencadeante, além da avaliação da saúde óssea quando indicado.

Transtornos alimentares podem estar associados a amenorreia e redução da densidade mineral óssea, tornando o reconhecimento precoce particularmente importante.

🥚 9. Insuficiência ovariana primária

Deve ser lembrada em mulheres com alteração menstrual persistente antes dos 40 anos.

A investigação inclui:

  • FSH
  • Estradiol
  • TSH
  • Prolactina
  • Avaliação etiológica individualizada

Em pacientes jovens, podem ser necessários exames genéticos e investigação de causas autoimunes conforme o contexto.

A ACOG ressalta que a insuficiência ovariana primária pode comprometer fertilidade e saúde óssea e cardiovascular, exigindo acompanhamento e tratamento individualizado.

💊 10. Tratamento: trate a causa

Não existe um tratamento único para amenorreia.

Amenorreia hipotalâmica

→ corrigir déficit energético
→ reduzir exercício excessivo
→ abordagem nutricional e psicológica
→ avaliar saúde óssea

Hiperprolactinemia

→ tratar a causa
→ medicamentos específicos quando indicados
→ investigação de adenoma hipofisário quando apropriado

Hipotireoidismo

→ reposição de hormônio tireoidiano

SOP

→ mudança de estilo de vida quando indicada
→ proteção endometrial
→ tratamento de hiperandrogenismo
→ desejo reprodutivo deve direcionar a estratégia

Insuficiência ovariana primária

→ terapia hormonal quando indicada e não contraindicada
→ proteção óssea e cardiovascular
→ aconselhamento reprodutivo

Causas anatômicas

→ avaliação ginecológica especializada
→ tratamento cirúrgico quando indicado

📌 O objetivo não é simplesmente “fazer a menstruação voltar”. É identificar e tratar a causa da amenorreia.

🚨 DoctorNews na prática

Mulher de 24 anos, previamente regular, apresenta amenorreia há 4 meses.

Primeiro passo:

➡️ β-hCG

Se negativo:

➡️ TSH + prolactina + avaliação gonadal
➡️ História clínica direcionada
➡️ Exame físico
➡️ Ultrassonografia pélvica quando indicada

Adolescente de 16 anos nunca menstruou, apresenta mamas desenvolvidas.

Raciocínio:

➡️ Amenorreia primária
➡️ Avaliar presença do útero
➡️ FSH/Estradiol conforme contexto
➡️ Considerar malformação mülleriana ou insensibilidade aos andrógenos

📝 Questões para residência

Questão 01

Adolescente de 16 anos apresenta desenvolvimento mamário normal, porém nunca apresentou menstruação. Ao exame, há ausência de útero à ultrassonografia. Qual das seguintes condições deve ser considerada no diagnóstico diferencial?

A) Síndrome de Asherman
B) Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser
C) Síndrome de Sheehan
D) Hiperprolactinemia

✅ Resposta: B

A ausência de útero em paciente com desenvolvimento mamário preservado sugere principalmente agenesia mülleriana ou insensibilidade aos andrógenos.

Questão 02

Mulher de 25 anos, previamente eumenorreica, apresenta amenorreia há 4 meses. Qual deve ser uma das primeiras medidas na investigação?

A) Solicitar ressonância de sela túrcica
B) Solicitar cariótipo
C) Solicitar β-hCG
D) Iniciar progesterona

✅ Resposta: C

gravidez deve ser excluída inicialmente em toda mulher em idade reprodutiva com amenorreia secundária.

📌 Questões elaboradas pelo DoctorNews em estilo de residência médica.

🔑 Mensagem-chave

Amenorreia não é um diagnóstico. É um sinal clínico.

O raciocínio começa definindo se é primária ou secundária, excluindo gravidez nas mulheres em idade reprodutiva e, posteriormente, utilizando história clínica, desenvolvimento sexual, presença do útero, FSH, prolactina, TSH e exames direcionados para identificar a causa.

Quanto mais cedo a etiologia for reconhecida, maior a possibilidade de preservar fertilidade, saúde óssea, saúde cardiovascular e qualidade de vida.

📚 Referências

  1. American Society for Reproductive Medicine. Current evaluation of amenorrhea: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2024;122(1):52–61.
  2. FEBRASGO. Amenorreia — Protocolos Assistenciais. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
  3. FEBRASGO. Amenorreia secundária: algoritmo diagnóstico. Femina, 2025.

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