🩸DIABETES MELLITUS: Classificação, diagnóstico, tratamento e complicações

Um guia de revisão para o internato: como reconhecer os diferentes tipos de diabetes, confirmar o diagnóstico, escolher o tratamento e prevenir complicações.

O diabetes mellitus (DM) é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por hiperglicemia crônica, decorrente de deficiência na secreção de insulina, resistência à sua ação ou combinação desses mecanismos. A exposição prolongada à hiperglicemia pode comprometer vasos sanguíneos, rins, retina, nervos e sistema cardiovascular.

Na prática clínica, o reconhecimento do tipo de diabetes é fundamental para definir a estratégia terapêutica. Enquanto o diabetes tipo 1 exige insulinoterapia, o tratamento do tipo 2 deve considerar o controle glicêmico, o risco cardiovascular, a função renal e as comorbidades.

1. CLASSIFICAÇÃO

Diabetes mellitus tipo 1 (DM1)

Caracterizado pela destruição das células beta pancreáticas, geralmente por mecanismo autoimune, levando à deficiência absoluta ou importante de insulina.

  • Mais frequente em crianças e adultos jovens, mas pode surgir em qualquer idade.
  • Pode apresentar início abrupto, com poliúria, polidipsia e perda de peso.
  • Há risco de cetoacidose diabética.
  • O tratamento exige insulina desde o diagnóstico.

O diabetes autoimune de início no adulto, conhecido como LADA, integra o espectro do DM1 e pode apresentar evolução inicialmente mais lenta.

Diabetes mellitus tipo 2 (DM2)

Caracterizado por resistência à ação da insulina associada à perda progressiva da capacidade secretória das células beta.

  • É a forma mais comum de diabetes.
  • Frequentemente associado a sobrepeso, obesidade abdominal, sedentarismo, hipertensão e dislipidemia.
  • Pode permanecer assintomático durante anos.
  • O tratamento envolve mudanças no estilo de vida e medicamentos, com insulinoterapia em situações específicas.

Diabetes mellitus gestacional (DMG)

É a hiperglicemia diagnosticada durante a gestação que não corresponde claramente a diabetes preexistente.

Está associado a maior risco de macrossomia fetal, complicações obstétricas e desenvolvimento posterior de DM2 pela mãe.

Outros tipos específicos

Incluem diabetes decorrente de:

  • Doenças do pâncreas exócrino, como pancreatite crônica;
  • Alterações genéticas, como diabetes monogênico (MODY);
  • Medicamentos, como glicocorticoides;
  • Outras doenças endócrinas ou condições que comprometem a secreção ou ação da insulina.

2. DIAGNÓSTICO

O diagnóstico é estabelecido por exames laboratoriais que identificam hiperglicemia.

Critérios diagnósticos em adultos não gestantes

ExameCritério para diabetes
Glicemia de jejum≥ 126 mg/dL
Hemoglobina glicada (HbA1c)≥ 6,5%
Teste oral de tolerância à glicose (75 g), 2 horas≥ 200 mg/dL
Glicemia plasmática ao acaso≥ 200 mg/dL, com sintomas clássicos ou crise hiperglicêmica

Confirmação: na ausência de hiperglicemia inequívoca, é necessário confirmar o diagnóstico com dois resultados alterados — dois exames diferentes ou repetição do mesmo exame em outra ocasião.

A glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL, associada a sintomas típicos como poliúria, polidipsia e perda de peso inexplicada, pode estabelecer o diagnóstico sem aguardar repetição.

Pré-diabetes

ExameFaixa de pré-diabetes
Glicemia de jejum100–125 mg/dL
HbA1c5,7–6,4%
Glicemia 2 horas após 75 g de glicose140–199 mg/dL

O pré-diabetes indica risco aumentado de DM2 e doença cardiovascular. Mudanças no estilo de vida, controle do peso e acompanhamento periódico são fundamentais.

Atenção no internato: HbA1c pode não refletir adequadamente a glicemia em situações como anemia importante, hemoglobinopatias, alterações da sobrevida das hemácias e algumas condições renais. Nesses casos, priorize critérios baseados em glicose e avaliação clínica.

3. TRATAMENTO

O tratamento deve ser individualizado conforme o tipo de diabetes, idade, risco de hipoglicemia, função renal, doença cardiovascular, peso e objetivos terapêuticos.

Diabetes tipo 1

A insulinoterapia é indispensável.

Esquema basal-bolus:

  • Insulina basal: controla a produção hepática de glicose entre refeições e durante o sono.
  • Insulina prandial: cobre a elevação glicêmica relacionada às refeições.

A educação sobre contagem de carboidratos, monitorização glicêmica, ajuste de doses e reconhecimento da hipoglicemia é parte essencial do tratamento.

Diabetes tipo 2

A abordagem combina mudanças no estilo de vida e tratamento farmacológico.

1. Medidas não farmacológicas

  • Alimentação individualizada e sustentável;
  • Atividade física regular;
  • Redução de peso quando indicada;
  • Cessação do tabagismo;
  • Controle da pressão arterial e dos lipídios.

2. Tratamento medicamentoso

ClassePrincipal açãoConsiderações clínicas
MetforminaReduz principalmente a produção hepática de glicoseOpção frequente; avaliar função renal e tolerabilidade gastrointestinal
Inibidores de SGLT2, como dapagliflozina e empagliflozinaAumentam a excreção urinária de glicoseBenefício cardiorrenal em pacientes selecionados, especialmente com insuficiência cardíaca ou doença renal crônica
Agonistas de GLP-1, como semaglutida e liraglutidaAumentam a secreção de insulina dependente da glicose, reduzem glucagon e promovem saciedadePodem favorecer perda de peso e oferecer benefício cardiovascular em pacientes selecionados
Sulfonilureias, como gliclazidaEstimulam a secreção de insulinaCusto acessível, mas maior risco de hipoglicemia e ganho de peso
InsulinaSubstitui ou complementa a deficiência de insulinaConsiderar diante de hiperglicemia importante, sintomas catabólicos ou controle inadequado com outras estratégias

Escolha terapêutica: em pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca ou doença renal crônica, medicamentos com benefício cardiorrenal comprovado podem ser priorizados independentemente da HbA1c, conforme indicação, contraindicações e disponibilidade.

Quando iniciar insulina no DM2?

Considere insulinoterapia quando houver:

  • Hiperglicemia acentuada com sintomas;
  • Perda de peso inexplicada ou outros sinais de catabolismo;
  • Suspeita de deficiência importante de insulina;
  • Descompensação metabólica aguda;
  • Controle inadequado apesar de tratamento otimizado.

Diabetes gestacional

O tratamento começa com orientação nutricional, atividade física quando apropriada e monitorização glicêmica. Se as metas não forem atingidas, a insulina é uma opção farmacológica preferencial. Os critérios diagnósticos e metas da gestação são específicos e não devem ser confundidos com os utilizados em adultos não gestantes.

4. COMPLICAÇÕES

As complicações do diabetes são divididas em agudas e crônicas.

Complicações agudas

Hipoglicemia

Geralmente definida como glicemia abaixo de 70 mg/dL.

Pode ocorrer principalmente com insulina e sulfonilureias.

Manifestações: sudorese, tremor, palpitações, fome, confusão e, em casos graves, convulsões ou perda de consciência.

Cetoacidose diabética (CAD)

Mais frequente no DM1, mas também pode ocorrer em DM2.

Caracteriza-se por deficiência de insulina, cetose e acidose metabólica. Pode apresentar náuseas, vômitos, dor abdominal, desidratação e respiração de Kussmaul.

É uma emergência médica e exige avaliação hospitalar, reposição volêmica, insulinoterapia e monitorização de eletrólitos.

Estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH)

Mais comum no DM2, geralmente associado a hiperglicemia acentuada, desidratação e hiperosmolalidade, com alteração do estado mental. A cetose costuma ser ausente ou menos intensa que na CAD.

Também é uma emergência médica, com tratamento baseado em reposição volêmica, correção de distúrbios eletrolíticos e insulinoterapia conforme avaliação.

Complicações crônicas

Microvasculares

  • Retinopatia diabética: lesão dos vasos da retina, podendo levar à perda visual.
  • Nefropatia diabética: albuminúria e redução progressiva da função renal.
  • Neuropatia diabética: perda de sensibilidade, dor neuropática e disfunção autonômica.

Macrovasculares

  • Doença arterial coronariana e infarto;
  • Acidente vascular cerebral;
  • Doença arterial periférica.

O risco cardiovascular é ampliado pela associação com hipertensão, dislipidemia, tabagismo e doença renal.

Pé diabético

A combinação de neuropatia, doença arterial periférica e alterações biomecânicas favorece úlceras, infecções e amputações.

A avaliação deve incluir inspeção dos pés, pesquisa de deformidades, pulsos periféricos e sensibilidade protetora, além de orientação sobre cuidados e calçados adequados.

5. PREVENÇÃO E ACOMPANHAMENTO

O acompanhamento do diabetes deve avaliar não apenas a HbA1c, mas também o risco cardiovascular e as complicações.

  • HbA1c geralmente a cada 3 meses quando o tratamento está sendo ajustado ou as metas não foram atingidas; pode ser espaçada para cerca de 6 meses quando o controle está estável.
  • Avaliação renal com creatinina/eTFG e relação albumina-creatinina urinária, pelo menos anualmente em pessoas com DM2 e após cerca de 5 anos de DM1, ou antes quando indicado.
  • Avaliação oftalmológica periódica para rastreamento de retinopatia.
  • Exame dos pés e avaliação de neuropatia e doença arterial periférica.
  • Controle da pressão arterial, perfil lipídico, tabagismo e vacinação.

RESUMO PARA O INTERNATO

Classificação: DM1, DM2, diabetes gestacional e outros tipos específicos.

Diagnóstico: glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL, HbA1c ≥ 6,5%, glicemia de 2 horas no TTGO ≥ 200 mg/dL ou glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL com sintomas clássicos ou crise hiperglicêmica.

Tratamento: insulina obrigatória no DM1; no DM2, individualizar mudanças de estilo de vida e medicamentos, considerando controle glicêmico e benefício cardiorrenal.

Complicações: hipoglicemia, CAD e EHH são agudas; retinopatia, nefropatia, neuropatia e doença cardiovascular são crônicas.

Mensagem-chave: o manejo do diabetes não se limita à glicemia. A prevenção de complicações cardiovasculares, renais, oftalmológicas e neuropáticas deve fazer parte da estratégia desde o diagnóstico.

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz SBD 2026: Diagnóstico de diabetes mellitus.
  2. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz SBD 2026: Classificação do diabetes.
  3. Sociedade Brasileira de Diabetes. Tratamento do DM2 no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualização de 2026.

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