Fisiopatologia, diagnóstico diferencial e tratamento das principais causas de corrimento vaginal
Corrimento vaginal, prurido, ardência, odor e dispareunia estão entre as queixas ginecológicas mais frequentes. Apesar de sintomas como “corrimento” serem comuns, a apresentação clínica isolada não é suficiente para determinar a etiologia, sendo fundamental correlacionar história clínica, exame ginecológico, pH vaginal, microscopia e, quando indicado, testes microbiológicos ou moleculares.
Entre as principais causas estão a candidíase vulvovaginal, vaginose bacteriana e tricomoníase. Também devem ser consideradas condições não infecciosas, como a síndrome geniturinária da menopausa (SGM), além das cervicites, frequentemente relacionadas às IST.
⚠️ Ponto-chave: nem todo corrimento é IST e nem todo corrimento é infeccioso. Candidíase e vaginose bacteriana são causas endógenas frequentes, enquanto tricomoníase e cervicites por C. trachomatis e N. gonorrhoeae estão relacionadas às IST.

1. CANDIDÍASE VULVOVAGINAL
🧬 Fisiopatologia
A candidíase vulvovaginal geralmente é causada por Candida albicans. A levedura pode fazer parte da microbiota vaginal sem causar sintomas; a doença ocorre quando há proliferação do fungo associada a uma resposta inflamatória local.
Em determinadas condições, a Candida pode assumir formas filamentosas, como pseudohifas e hifas, aumentando a capacidade de aderência e invasão superficial do epitélio e desencadeando resposta inflamatória.
🔎 Quadro clínico
- Prurido vulvar intenso
- Ardência
- Eritema e edema vulvar
- Disúria externa
- Dispareunia
- Fissuras ou escoriações
- Corrimento branco, espesso e grumoso, classicamente descrito como “coalhado”
O pH vaginal geralmente permanece ≤ 4,5.
🔬 Diagnóstico
Pode ser realizado por:
- Exame a fresco
- Preparação com KOH
- Identificação de leveduras, pseudohifas ou hifas
- Cultura para Candida quando o diagnóstico permanece incerto ou há recorrência
A presença isolada de Candida na cultura, sem sintomas ou sinais, não significa necessariamente doença, pois a colonização assintomática é frequente.
💊 Tratamento — adulto
Fluconazol 150 mg VO, dose única
OU
Azólico tópico, conforme apresentação disponível, geralmente por 1–7 dias.
🤰 Gestação
Na gestação, deve-se preferir tratamento tópico com azólico por 7 dias. O fluconazol oral não é recomendado para candidíase vulvovaginal durante a gestação.
🔁 Candidíase recorrente
Considerar investigação adicional quando houver episódios recorrentes. Em casos por C. albicans, um esquema utilizado é:
Fluconazol 150 mg VO nos dias 1, 4 e 7, seguido de 150 mg uma vez por semana durante 6 meses, conforme avaliação clínica.
2. VAGINOSE BACTERIANA
🧬 Fisiopatologia
A vaginose bacteriana não representa simplesmente uma “infecção por uma bactéria isolada”.
É caracterizada por uma disbiose vaginal, com redução dos lactobacilos produtores de ácido lático e aumento de bactérias anaeróbias, incluindo Gardnerella e outras espécies.
A redução da produção de ácido lático eleva o pH vaginal e favorece a produção de aminas voláteis, responsáveis pelo odor característico.
🔎 Quadro clínico
- Corrimento fino e homogêneo
- Coloração branco-acinzentada
- Odor desagradável, frequentemente descrito como “odor de peixe”
- Odor mais evidente após relação sexual
- Prurido geralmente discreto ou ausente
🔬 Diagnóstico
Os critérios de Amsel incluem:
- Corrimento vaginal homogêneo;
- pH > 4,5;
- Teste das aminas positivo;
- Presença de clue cells na microscopia.
A presença de pelo menos 3 dos 4 critérios apoia o diagnóstico.
💊 Tratamento
Metronidazol 500 mg VO, 12/12h, por 7 dias
OU
Metronidazol gel vaginal 0,75%, 5 g, 1x/dia por 5 dias
OU
Clindamicina creme vaginal 2%, 5 g à noite por 7 dias.
Parceria sexual: o tratamento rotineiro da parceria sexual não é recomendado para vaginose bacteriana.
3. TRICOMONÍASE
🧬 Fisiopatologia
É uma IST causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis.
O parasita coloniza o trato genital e desencadeia resposta inflamatória importante, podendo provocar alterações do epitélio cervical e vaginal.
🔎 Quadro clínico
- Corrimento abundante
- Amarelo-esverdeado ou acinzentado
- Odor desagradável
- Prurido
- Ardência
- Disúria
- Dispareunia
- Sangramento pós-coito
Um achado clássico é o colo uterino em “morango”, decorrente de inflamação e pequenas hemorragias puntiformes.
O pH frequentemente está > 4,5, embora o pH isoladamente não seja diagnóstico.
🔬 Diagnóstico
Pode ser realizado por:
- Microscopia a fresco
- Testes de amplificação de ácidos nucleicos (NAAT)
- Outros testes laboratoriais disponíveis
A microscopia negativa não exclui completamente a infecção, devido à sensibilidade limitada do método.
💊 Tratamento
Para mulheres:
Metronidazol 500 mg VO, 12/12h, por 7 dias
Alternativa:
Metronidazol 2 g VO, dose única
ou, conforme protocolo/disponibilidade:
Tinidazol 2 g VO, dose única.
👥 Atenção às parcerias
As parcerias sexuais devem ser tratadas, mesmo na ausência de sintomas, para reduzir o risco de reinfecção. Recomenda-se também considerar testagem para outras IST.
4. VAGINITE ATRÓFICA / SÍNDROME GENITURINÁRIA DA MENOPAUSA
🧬 Fisiopatologia
Diferentemente das três condições anteriores, não se trata de uma infecção.
A redução dos níveis de estrogênio provoca:
↓ glicogênio epitelial → ↓ lactobacilos → ↑ pH vaginal → afinamento do epitélio → redução da lubrificação e maior fragilidade da mucosa.
O resultado pode ser secura, irritação, dispareunia e sintomas urinários.
Embora seja mais comum na menopausa, redução estrogênica também pode ocorrer no pós-parto, durante a amamentação e em algumas terapias oncológicas.
🔎 Quadro clínico
- Secura vaginal
- Ardência
- Prurido
- Dispareunia
- Redução da lubrificação
- Mucosa pálida e fina
- Friabilidade
- Sintomas urinários
- pH geralmente > 4,5
💊 Tratamento
- Hidratantes vaginais
- Lubrificantes durante a relação sexual
- Estrogênio vaginal tópico, quando indicado
- Avaliação individual de contraindicações e fatores de risco
A escolha e a dose do estrogênio vaginal devem considerar o produto utilizado e o contexto clínico da paciente.
IMPORTANTE: vaginite atrófica/SGM não deve ser tratada com antibiótico ou antifúngico simplesmente porque existe corrimento ou desconforto.
5. CERVICITE
🧬 Fisiopatologia
A cervicite corresponde à inflamação do colo uterino, frequentemente relacionada a agentes sexualmente transmissíveis.
Os principais agentes são:
- Chlamydia trachomatis
- Neisseria gonorrhoeae
Também podem estar envolvidos:
- Trichomonas vaginalis
- Mycoplasma genitalium
- HSV, entre outros.
🔎 Quadro clínico
A cervicite pode ser assintomática.
Quando sintomática:
- Corrimento mucopurulento endocervical
- Sangramento intermenstrual
- Sangramento pós-coito
- Dispareunia
- Disúria
No exame especular podem aparecer:
colo friável + muco cervical purulento/mucopurulento + sangramento ao toque.
🔬 Investigação
Quando disponível, deve-se realizar investigação molecular para:
- C. trachomatis
- N. gonorrhoeae
Também deve ser considerada investigação para outras IST, conforme o contexto clínico.
💊 Tratamento
Para cervicite com indicação de tratamento empírico para clamídia:
Doxiciclina 100 mg VO, 12/12h, por 7 dias.
A cobertura para gonococo deve ser acrescentada de acordo com risco epidemiológico, prevalência local e/ou achados laboratoriais.
No PCDT brasileiro, o tratamento da infecção gonocócica não complicada utiliza ceftriaxona 500 mg IM em dose única, associada ao manejo da clamídia quando indicado.

🚨 CERVICITE ≠ DOENÇA INFLAMATÓRIA PÉLVICA
Essa diferenciação é fundamental.
A presença de:
- Dor pélvica;
- Dor à mobilização do colo;
- Dor uterina ou anexial;
- Febre;
- Mal-estar importante;
deve levantar a possibilidade de doença inflamatória pélvica (DIP) e mudar a abordagem clínica.
O PCDT brasileiro recomenda investigação de DIP diante de achados compatíveis no contexto de cervicite.
🧪 COMO RACIOCINAR DIANTE DO CORRIMENTO?
1️⃣ Primeiro: avaliar o contexto
História clínica + exame ginecológico + características do corrimento.
2️⃣ Depois: avaliar o pH
| pH vaginal | Principais possibilidades |
|---|---|
| ≤ 4,5 | Candidíase |
| > 4,5 | Vaginose bacteriana / tricomoníase / SGM |
⚠️ O pH não estabelece diagnóstico isoladamente.
3️⃣ Correlacionar com o aspecto
Branco + grumoso + prurido intenso → pensar em candidíase
Fino + homogêneo + odor de peixe → pensar em vaginose bacteriana
Amarelo-esverdeado + inflamação + colo em morango → pensar em tricomoníase
Secura + dispareunia + menopausa + mucosa atrófica → pensar em SGM
Mucopus cervical + colo friável + sangramento pós-coito → pensar em cervicite
⚠️ QUANDO INVESTIGAR ALÉM DO CORRIMENTO?
A avaliação deve ser ampliada diante de:
- Dor pélvica;
- Febre;
- Sangramento anormal;
- Sangramento pós-coito;
- Gestação;
- Recorrência frequente;
- Falha terapêutica;
- Imunossupressão;
- Suspeita de IST;
- Sintomas persistentes sem diagnóstico definido.
O CDC destaca que história clínica isolada pode levar a diagnósticos incorretos e tratamento inadequado; quando os sintomas persistem sem etiologia clara, deve-se considerar investigação complementar e, quando necessário, avaliação especializada.
🧠 DOCTOR NEWS | PONTOS-CHAVE
🔹 Candidíase: pH geralmente ≤ 4,5 + prurido intenso + corrimento grumoso.
🔹 Vaginose bacteriana: disbiose + pH > 4,5 + odor de peixe + clue cells.
🔹 Tricomoníase: IST + corrimento amarelo-esverdeado + pH frequentemente elevado + possibilidade de colo em morango.
🔹 SGM: deficiência estrogênica + secura + dispareunia + alterações tróficas.
🔹 Cervicite: pensar principalmente em clamídia e gonococo diante de colo friável e secreção mucopurulenta.
🔹 Diagnóstico não deve ser baseado apenas na aparência do corrimento.
🔹 Corrimento recorrente não significa necessariamente “nova candidíase”.

* Não utilizar fluconazol oral na gestação.
📌 CONCLUSÃO
O manejo adequado do corrimento vaginal exige mais do que reconhecer a aparência da secreção. A fisiopatologia, o pH, o exame ginecológico, a microscopia e os testes laboratoriais devem ser integrados ao contexto clínico para diferenciar infecções endógenas, IST e causas não infecciosas.
Além de aumentar a precisão diagnóstica, essa abordagem reduz o uso inadequado de antimicrobianos e evita que condições como vaginose bacteriana, tricomoníase, cervicite e síndrome geniturinária da menopausa sejam tratadas indiscriminadamente como candidíase.
📚 REFERÊNCIAS
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis – PCDT-IST. Brasília: Ministério da Saúde.
- Ministério da Saúde. Corrimentos – Infecções Sexualmente Transmissíveis.

Super importantes esses comentarios para que haja o tratamento específico para cada causa. Para que não exista só um medicamento usado para infecções diferentes.. Artigo muito bem esclarecido
Muito obrigado