🤰 Síndromes hipertensivas na gestação: como reconhecer, investigar e conduzir

Da hipertensão gestacional à eclâmpsia: o que muda no diagnóstico e na conduta?

As síndromes hipertensivas estão entre as principais complicações da gestação e representam uma importante causa de morbimortalidade materna e perinatal.

Na prática, o grande desafio não é apenas identificar uma PA elevada, mas reconhecer rapidamente qual síndrome hipertensiva está presente, se existem sinais de gravidade e quando é necessário intervir.

🩺 1. Primeiro passo: é hipertensão?

Considera-se hipertensão arterial na gestação:

PA ≥ 140 × 90 mmHg.

O diagnóstico deve ser baseado em medidas adequadas e, quando possível, confirmado em medidas subsequentes.

Já a presença de:

🚨 PA ≥ 160 × 110 mmHg

caracteriza hipertensão grave e exige avaliação e tratamento rápidos, devido ao risco aumentado de complicações maternas graves, especialmente acidente vascular cerebral.

📌 DoctorNews: na gestante, não espere aparecer proteinúria para levar uma hipertensão grave a sério.

🔎 2. As principais síndromes hipertensivas

A classificação é fundamental porque determina investigação, acompanhamento e conduta.

🟡 Hipertensão crônica

É aquela:

  • presente antes da gestação; ou
  • diagnosticada antes de 20 semanas.

Também pode ser diagnosticada após 20 semanas quando persiste além do puerpério.

🟢 Hipertensão gestacional

Caracteriza-se por:

HAS ≥20 semanas + ausência de proteinúria ou de sinais de lesão de órgão-alvo.

Pode evoluir posteriormente para pré-eclâmpsia.

Por isso, a paciente precisa de acompanhamento materno e fetal.

🔴 Pré-eclâmpsia

É caracterizada por:

HAS ≥20 semanas + proteinúria e/ou comprometimento de órgão-alvo.

A proteinúria pode ser identificada, por exemplo, por:

  • ≥300 mg/24 horas;
  • relação proteína/creatinina ≥0,3.
⚠️ Mas atenção:

A ausência de proteinúria não exclui pré-eclâmpsia.

A doença pode ser diagnosticada diante de hipertensão associada a alterações como:

  • plaquetopenia;
  • alteração renal;
  • alteração hepática;
  • edema pulmonar;
  • sintomas neurológicos ou visuais.

🧠 3. Pré-eclâmpsia: procure sinais de gravidade

Diante de uma paciente hipertensa, algumas perguntas devem fazer parte da avaliação:

🧠 Neurológico

  • Cefaleia intensa ou persistente?
  • Alterações visuais?
  • Escotomas?
  • Hiperreflexia ou clônus?
  • Convulsão?

🫁 Respiratório

  • Dispneia?
  • Dor torácica?
  • Sinais de edema pulmonar?

🩸 Abdominal

  • Dor epigástrica?
  • Dor em hipocôndrio direito?

🧪 Laboratório

  • Plaquetas reduzidas?
  • TGO/TGP elevadas?
  • Creatinina elevada?

👶 Feto/placenta

  • Restrição do crescimento fetal?
  • Alterações do líquido amniótico?
  • Alterações Doppler?
  • Comprometimento da vitalidade fetal?

⚡ 4. Eclâmpsia: quando aparece a convulsão

Eclâmpsia = pré-eclâmpsia associada à ocorrência de convulsão, sem outra causa neurológica que explique o quadro.

Pode ocorrer:

  • durante a gestação;
  • durante o trabalho de parto;
  • após o parto.

🚨 É uma emergência obstétrica.

O tratamento anticonvulsivante de escolha é o:

💊 Sulfato de magnésio

📌 Importante: o sulfato de magnésio não é utilizado para baixar a pressão arterial.

Seu objetivo é prevenir ou tratar as convulsões.

A hipertensão grave deve ser tratada separadamente com anti-hipertensivos apropriados.

🩸 5. HELLP: não deixe passar

A síndrome HELLP representa uma forma grave de doença hipertensiva da gestação e caracteriza-se pela associação de:

H – Hemólise
EL – Elevação das enzimas hepáticas
LP – Low Platelets (plaquetopenia)

Pode apresentar:

  • dor em epigástrio ou hipocôndrio direito;
  • náuseas e vômitos;
  • mal-estar;
  • cefaleia;
  • alterações laboratoriais importantes.

📌 DoctorNews: uma paciente com hipertensão + dor em hipocôndrio direito/epigástrio merece investigação imediata.

💊 6. Como tratar a hipertensão?

A conduta depende de:

níveis pressóricos + idade gestacional + presença de pré-eclâmpsia + sinais de gravidade + condição fetal.

Entre os medicamentos utilizados no controle da hipertensão durante a gestação estão:

🟢 Tratamento de manutenção

Entre as opções utilizadas na gestação:

Metildopa

  • 750–2.000 mg/dia
  • Divididos em 2–4 tomadas.

Nifedipino de liberação prolongada

  • 20–120 mg/dia
  • Divididos em 1–3 tomadas, conforme apresentação e resposta clínica.

Hidralazina VO

  • 50–150 mg/dia
  • Divididos em 2–3 tomadas.

Metoprolol

  • 100–200 mg/dia
  • Divididos em 1–2 tomadas.

As doses devem ser individualizadas e tituladas conforme resposta pressórica e tolerabilidade. 

📌 DoctorNews: protocolos podem variar quanto à droga de primeira escolha. O Ministério da Saúde atualmente recomenda tratamento farmacológico das gestantes com hipertensão persistente, com objetivo de manter a pressão diastólica em torno de 85 mmHg. 

💊 E o AAS?

Nas gestantes com indicação de prevenção da pré-eclâmpsia, o AAS deve ser iniciado precocemente, geralmente após o primeiro trimestre, conforme avaliação do risco e protocolo adotado.

Uma dose frequentemente utilizada é:

AAS 100 mg/dia

A indicação deve ser individualizada de acordo com os fatores de risco maternos. A FEBRASGO destaca benefício do uso de doses ≥75 mg, iniciado por volta de 12 semanas e idealmente antes de 16 semanas nas pacientes elegíveis. 

🚨 E atenção aos medicamentos contraindicados

Durante a gestação, devem ser evitados medicamentos que atuam no sistema renina-angiotensina, como:

❌ IECA — enalapril, captopril etc.
❌ BRA — losartana, valsartana etc.

🚨 7. PA ≥160 × 110 mmHg: pense em emergência

Esse é um dos pontos mais importantes para a prática e para as provas de residência.

Diante de hipertensão grave persistente, a paciente precisa de:

  1. confirmação adequada da pressão;
  2. avaliação clínica imediata;
  3. investigação de lesão de órgão-alvo;
  4. tratamento anti-hipertensivo rápido;
  5. avaliação fetal;
  6. avaliação da necessidade de sulfato de magnésio;
  7. definição do local e momento adequado para resolução da gestação.

📌 Não é necessário esperar todos os exames laboratoriais ficarem prontos para tratar uma hipertensão grave persistente.

hipertensão grave persistente exige tratamento rápido para reduzir o risco de complicações maternas, especialmente AVC. A FEBRASGO apresenta esquemas específicos para crise hipertensiva. 

💊 Opção 1 — Nifedipino VO

Nifedipino 5–10 mg VO

Se a hipertensão grave persistir:

➡️ após 20 minutos: mais 10–20 mg VO

➡️ após 40 minutos, se ainda persistente: mais 10–20 mg

Máximo: 30 mg por episódio de tratamento ou 180 mg/24h, conforme o protocolo FEBRASGO. 

💉 Opção 2 — Hidralazina IV

Hidralazina 5 mg IV, lentamente.

Se a PA grave persistir após 20 minutos:

➡️ mais 5–10 mg IV

Se persistir após 40 minutos:

➡️ mais 5–10 mg IV

Dose máxima: 45 mg por episódio, segundo o protocolo FEBRASGO. 

📌 Durante o tratamento, é fundamental monitorizar a PA materna e a vitalidade fetal.

🧠 Sulfato de magnésio: qual dose?

O sulfato de magnésio é utilizado para prevenir ou tratar convulsões na pré-eclâmpsia com características graves e na eclâmpsia.

💉 Esquema intravenoso

Ataque:

  • 4–6 g IV, lentamente, em aproximadamente 20 minutos.

Manutenção:

  • 1–2 g/h IV, em infusão contínua.

Em caso de recorrência da convulsão:

➡️ pode-se administrar 2 g adicionais de sulfato de magnésio IV

🚨 Monitorização durante o MgSO₄

Observar:

  • reflexos patelares;
  • frequência respiratória;
  • nível de consciência;
  • diurese.

gluconato de cálcio 10% deve estar disponível como antídoto em caso de toxicidade pelo magnésio.

🧪 8. O que investigar?

Na suspeita de pré-eclâmpsia, a avaliação materna geralmente inclui:

Sangue

  • Hemograma;
  • plaquetas;
  • creatinina;
  • TGO/TGP;
  • outros exames conforme o quadro clínico.

Urina

  • avaliação de proteinúria;
  • relação proteína/creatinina ou coleta de 24 horas, conforme disponibilidade e protocolo.

Avaliação fetal

  • ultrassonografia;
  • crescimento fetal;
  • líquido amniótico;
  • Doppler quando indicado;
  • cardiotocografia conforme idade gestacional e condição clínica.

👶 9. Quando interromper a gestação?

A decisão não depende exclusivamente do diagnóstico de pré-eclâmpsia.

É necessário considerar:

idade gestacional + gravidade materna + condição fetal + resposta ao tratamento.

Entre as situações que podem exigir interrupção estão:

🚨 Eclâmpsia
🚨 HELLP
🚨 Hipertensão grave não controlada
🚨 Edema pulmonar
🚨 Deterioração materna importante
🚨 Comprometimento fetal grave
🚨 Descolamento prematuro de placenta

Em pacientes estáveis e sem características graves, pode haver conduta expectante, dependendo da idade gestacional e da avaliação materno-fetal.

📋 10. Quadro rápido para não esquecer

🩺 DOCTOR NEWS NA PRÁTICA

Paciente gestante chega com PA 170 × 110 mmHg. E agora?

1️⃣ Não rotule imediatamente como “pré-eclâmpsia”.

Primeiro, confirme a pressão e avalie a paciente.

2️⃣ Procure sinais de gravidade.

Cefaleia? Alteração visual? Dor epigástrica? Dispneia? Convulsão?

3️⃣ Controle a pressão rapidamente se a hipertensão grave for persistente.

4️⃣ Investigue lesão de órgão-alvo.

Plaquetas, função renal, enzimas hepáticas e proteinúria, entre outros exames conforme o quadro.

5️⃣ Avalie o feto.

6️⃣ Considere sulfato de magnésio quando houver indicação.

7️⃣ Defina a necessidade de interrupção da gestação.

🔑 O raciocínio é:

PA elevada → gravidade? → lesão de órgão? → mãe estável? → feto estável? → tratar → decidir acompanhamento ou interrupção.

🎯 PÉROLA PARA RESIDÊNCIA

Toda pré-eclâmpsia é hipertensão, mas nem toda hipertensão na gestação é pré-eclâmpsia.

E mais importante:

Pré-eclâmpsia pode existir mesmo sem proteinúria quando há comprometimento de órgão-alvo.

🔑 MENSAGEM-CHAVE

As síndromes hipertensivas da gestação devem ser diferenciadas principalmente pelo momento do diagnóstico, presença de proteinúria, sinais de lesão de órgão-alvo e gravidade clínica.

Na prática, diante de uma gestante hipertensa, três perguntas orientam a conduta:

É hipertensão grave?

Existe lesão de órgão-alvo?

Mãe e feto estão estáveis?

Reconhecer rapidamente essas respostas é fundamental para reduzir complicações maternas e perinatais.

📚 Referências

  • Ministério da Saúde. Gestação de Alto Risco: manual técnico.
  • Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres.
  • FEBRASGO. Pré-eclâmpsia: diagnóstico, prevenção e manejo.

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