🌸 Anticoncepção na prática: como escolher o método certo para cada paciente?

A anticoncepção permite que a mulher tenha maior autonomia para decidir se e quando deseja engravidar. Entretanto, escolher um método contraceptivo não significa simplesmente selecionar aquele com maior eficácia.

A decisão deve considerar perfil clínico, fatores de risco, padrão menstrual, desejo reprodutivo, possibilidade de adesão, efeitos adversos, contraindicações e preferência da paciente

Na prática clínica, o papel do médico é apresentar as opções disponíveis, explicar vantagens e desvantagens e realizar uma decisão compartilhada.

🩺 1. Quais são os principais métodos contraceptivos?

Os métodos podem ser classificados em diferentes grupos:

🔹 Métodos hormonais combinados

Contêm estrogênio + progestagênio.

Exemplos:

  • pílula combinada;
  • adesivo transdérmico;
  • anel vaginal;
  • contraceptivo injetável mensal.

O principal mecanismo contraceptivo é a inibição da ovulação

🔹 Métodos hormonais apenas com progestagênio

Podem ser encontrados em diferentes apresentações:

  • pílula de progestagênio;
  • injetável trimestral;
  • implante subdérmico;
  • sistema intrauterino com levonorgestrel.

Os mecanismos incluem inibição da ovulação, alteração do muco cervical e alterações endometriais, dependendo do método. 

🔹 Métodos intrauterinos
  • DIU de cobre;
  • SIU-LNG.
🔹 Métodos de barreira
  • preservativo masculino;
  • preservativo feminino;
  • diafragma.

📌 Importante: o preservativo é o método contraceptivo que também oferece proteção contra infecções sexualmente transmissíveis.

🎯 2. O primeiro passo: o que a paciente deseja?

Antes de escolher o método, algumas perguntas são fundamentais:

Quando deseja engravidar?

Deseja um método hormonal ou prefere evitar hormônios?

Como é seu fluxo menstrual?

Apresenta cólicas importantes?

Tem dificuldade para lembrar medicamentos diariamente?

Possui alguma doença ou utiliza medicamentos continuamente?

Deseja um método de longa duração?

📌 A FEBRASGO destaca que a escolha deve considerar não apenas os critérios médicos, mas também aspectos sociais, comportamentais, psicológicos e a preferência individual. 

💊 3. Métodos hormonais combinados

Os anticoncepcionais hormonais combinados apresentam estrogênio associado a um progestagênio.

Podem ser utilizados por via:

→ oral
→ transdérmica
→ vaginal
→ injetável mensal

Além da contracepção, podem apresentar benefícios relacionados ao padrão menstrual e a algumas condições ginecológicas. 

📌 Mas atenção:

O componente estrogênico exige avaliação dos fatores de risco da paciente.

Antes da prescrição, deve-se investigar condições como:

  • história de tromboembolismo;
  • enxaqueca com aura;
  • hipertensão arterial;
  • tabagismo, especialmente em determinadas faixas etárias;
  • doenças cardiovasculares;
  • doença hepática;
  • período pós-parto.

📌 Não basta perguntar “qual anticoncepcional você quer usar?”. É necessário avaliar se ela pode usar aquele método com segurança.

🟣 4. Quando pensar em método apenas com progestagênio?

Os métodos contendo apenas progestagênio são importantes alternativas quando o uso de estrogênio não é desejável ou apresenta restrições.

Entre eles estão:

  • pílulas de progestagênio;
  • implante de etonogestrel;
  • injetável trimestral;
  • SIU-LNG.

A eficácia e o mecanismo variam de acordo com a formulação. O implante de etonogestrel e alguns métodos de longa duração apresentam elevada eficácia contraceptiva. 

📌 Ponto de atenção:

A ausência de estrogênio não significa que todos os métodos de progestagênio sejam iguais.

A escolha depende do perfil da paciente e das características de cada método.

🔄 5. E os métodos de longa duração?

Os LARC – Long-Acting Reversible Contraceptives – incluem os dispositivos intrauterinos e os implantes contraceptivos.

São métodos altamente eficazes porque, após sua inserção, não dependem da lembrança ou adesão diária da paciente

Entre as opções estão:

🔴 DIU de cobre

→ Não hormonal
→ Longa duração
→ Pode aumentar fluxo e cólicas

🟣 SIU-LNG

→ Libera levonorgestrel
→ Longa duração
→ Tende a reduzir o sangramento menstrual

🟢 Implante de etonogestrel

→ Método hormonal
→ Subdérmico
→ Alta eficácia
→ Não depende de uso diário

📌 LARC é especialmente interessante quando a principal dificuldade é a adesão.

🩸 6. O padrão menstrual pode definir a escolha

Esse é um dos pontos mais importantes da consulta.

Paciente com fluxo menstrual intenso

➡️ Considerar métodos que possam reduzir o sangramento, como o SIU-LNG.

Paciente com dismenorreia

➡️ Avaliar métodos que possam proporcionar melhora da dor menstrual.

Paciente que deseja manter ciclos menstruais

➡️ Discutir previamente os efeitos de cada método sobre o padrão de sangramento.

Paciente que não deseja hormônios

➡️ Considerar o DIU de cobre, desde que o perfil menstrual seja compatível.

📌 A alteração do padrão de sangramento é uma das principais causas de insatisfação e descontinuação de métodos contraceptivos.

Por isso, explicar o que pode acontecer antes da prescrição é fundamental.

🚨 7. Quando o anticoncepcional combinado não é a melhor escolha?

O estrogênio pode representar um problema em algumas situações clínicas.

Entre os cenários que exigem atenção estão:

  • enxaqueca com aura;
  • histórico de tromboembolismo;
  • determinadas doenças cardiovasculares;
  • hipertensão não controlada;
  • algumas doenças hepáticas;
  • determinadas situações relacionadas ao tabagismo e idade.

📌 A presença de uma contraindicação ao estrogênio não significa ausência de opções contraceptivas.

Muitas pacientes podem ser candidatas a métodos apenas com progestagênio ou não hormonais, dependendo da condição clínica.

👩‍⚕️ 8. Adolescentes nulíparas podem usar LARC?

Sim.

A idade ou a nuliparidade, isoladamente, não contraindicam métodos contraceptivos de longa duração.

A FEBRASGO destaca a importância da avaliação individual e da escolha compartilhada. 

📌 O objetivo não é escolher o método “mais eficaz” para todas as adolescentes, mas oferecer todas as opções adequadas, permitindo uma decisão informada.

🤱 9. E durante a amamentação?

A escolha do método no pós-parto deve considerar:

  • tempo desde o parto;
  • amamentação;
  • risco tromboembólico;
  • presença de outras condições clínicas;
  • preferência da paciente.

Métodos com progestagênio e métodos intrauterinos possuem papel importante nesse período, respeitando os critérios de elegibilidade.

📌 A contracepção pós-parto deve ser discutida ainda durante o pré-natal.

🦠 10. Anticoncepção não é sinônimo de proteção contra IST

Esse é um dos principais pontos que devem ser reforçados durante a consulta.

A maioria dos métodos contraceptivos:

❌ não protege contra HIV
❌ não protege contra sífilis
❌ não protege contra gonorreia
❌ não protege contra clamídia

preservativo continua sendo fundamental para prevenção de ISTs.

📌 Estratégia importante:

Dupla proteção = contracepção + preservativo.

🚨 11. E a contracepção de emergência?

A contracepção de emergência é indicada após relação sexual com risco de gravidez e deve ser utilizada o mais precocemente possível.

Entre as opções estão:

  • levonorgestrel;
  • métodos intrauterinos em situações apropriadas.

O DIU de cobre apresenta ainda a vantagem de permanecer como método contraceptivo de longa duração após sua inserção. 

📌 Contracepção de emergência não deve ser confundida com método contraceptivo de uso regular.

🩺 12. Doctor News na prática
CASO 01

Mulher de 22 anos, saudável, deseja contracepção por vários anos e relata dificuldade em lembrar medicamentos diariamente.

Qual estratégia deve ser considerada?

➡️ Método reversível de longa duração (LARC).

DIU ou implante podem ser discutidos conforme elegibilidade e preferência.

CASO 02

Mulher de 30 anos apresenta fluxo menstrual intenso e deseja contracepção prolongada.

➡️ SIU-LNG pode ser uma excelente opção.

Além da contracepção, apresenta importante efeito sobre o endométrio e tende a reduzir o sangramento.

CASO 03

Mulher de 35 anos deseja anticoncepcional combinado, mas apresenta enxaqueca com aura.

➡️ Não escolher automaticamente um método contendo estrogênio.

É necessário avaliar alternativas contraceptivas adequadas ao seu perfil clínico.

CASO 04

Paciente deseja contracepção, mas também relata novo parceiro sexual e preocupação com IST.

➡️ Contracepção + preservativo.

O método contraceptivo previne gravidez; o preservativo acrescenta proteção contra IST.

📝 14. Questões para residência

QUESTÃO 01

Uma mulher de 27 anos deseja um método contraceptivo altamente eficaz, reversível e que não dependa de uso diário. Qual grupo deve ser considerado prioritariamente?

A) Métodos comportamentais
B) LARC
C) Coito interrompido
D) Espermicida isolado

✅ Resposta: B

Os métodos reversíveis de longa duração apresentam elevada eficácia e menor dependência da adesão da usuária. 

QUESTÃO 02

Mulher de 29 anos apresenta fluxo menstrual intenso e deseja contracepção de longa duração. Qual opção tende a apresentar benefício sobre o sangramento?

A) DIU de cobre
B) SIU-LNG
C) Método de barreira
D) Coito interrompido

✅ Resposta: B

O SIU-LNG apresenta importante efeito endometrial e tende a reduzir o sangramento menstrual.

QUESTÃO 03

Mulher de 32 anos deseja utilizar anticoncepcional combinado, porém apresenta enxaqueca com aura. Qual deve ser a conduta?

A) Prescrever anticoncepcional combinado normalmente
B) Aumentar a dose de estrogênio
C) Avaliar método contraceptivo alternativo ao estrogênio
D) Indicar apenas contracepção de emergência

✅ Resposta: C

A presença de condições clínicas que aumentam o risco associado ao estrogênio exige avaliação de alternativas contraceptivas.

QUESTÃO 04

Sobre os métodos contraceptivos, assinale a alternativa CORRETA:

A) Todos os métodos hormonais protegem contra ISTs.
B) O DIU de cobre contém progestagênio.
C) Os LARC dependem de uso diário para manter sua eficácia.
D) A escolha do método deve considerar características clínicas e preferência da paciente.

✅ Resposta: D

A escolha contraceptiva deve ser individualizada, considerando segurança, eficácia, perfil clínico, estilo de vida e preferência da paciente. 


🔑 MENSAGEM-CHAVE

O melhor método contraceptivo não é o mais eficaz para todas as mulheres — é o método mais adequado para cada paciente.

A escolha deve considerar segurança, eficácia, adesão, padrão menstrual, comorbidades, desejo reprodutivo e preferência individual.

Antes de prescrever, pergunte:

“Quando você pretende engravidar?”

“Você prefere um método hormonal ou não hormonal?”

“Como é o seu fluxo menstrual?”

“Você teria facilidade para utilizar o método corretamente?”

“Existe alguma condição de saúde ou medicamento que possa interferir na escolha?”

📌 Anticoncepção de qualidade começa com uma boa conversa e termina com uma decisão compartilhada.

📚 Referências

  1. FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Métodos anticoncepcionais reversíveis de longa duração. Protocolo FEBRASGO – Ginecologia nº 64. São Paulo: FEBRASGO; 2023. 
  2. FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Anticoncepção hormonal combinada. Protocolo FEBRASGO – Ginecologia nº 65. São Paulo: FEBRASGO; 2021. 
  3. FEBRASGO – Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Anticoncepcional hormonal apenas de progestagênio e anticoncepção de emergência. Protocolo FEBRASGO – Ginecologia nº 70. São Paulo: FEBRASGO; 2020. 
  4. FEBRASGO. Método contraceptivo: escolha deve considerar segurança, perfil clínico e estilo de vida da mulher.2026. 

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