🩺 Histerectomia: quando retirar o útero é a melhor escolha terapêutica

histerectomia é um dos procedimentos ginecológicos mais realizados no mundo e consiste na remoção cirúrgica parcial ou total do útero. Embora muitas pessoas associem a cirurgia apenas ao tratamento de miomas, ela também é indicada em diversas condições benignas e malignas que comprometem a saúde e a qualidade de vida da mulher (Berek & Novak’s Gynecology, 2020; Williams Gynecology, 2024).

Mais do que um procedimento cirúrgico, a histerectomia representa uma decisão cuidadosamente planejada, baseada na gravidade da doença, na idade da paciente, no desejo reprodutivo e na resposta aos tratamentos conservadores (ACOG Committee Opinion No. 701, 2017).

🧬 O que é a histerectomia?

A histerectomia é classificada de acordo com a extensão da cirurgia:

  • Histerectomia subtotal (supracervical): remove apenas o corpo uterino, preservando o colo.
  • Histerectomia total: remove corpo e colo do útero.
  • Histerectomia radical: indicada principalmente no câncer ginecológico, envolvendo útero, colo, parte superior da vagina e tecidos adjacentes.
  • Com ou sem salpingo-ooforectomia: pode haver retirada das trompas (salpingectomia) e/ou dos ovários (ooforectomia), dependendo da indicação clínica (Berek & Novak’s Gynecology, 2020).

As vias cirúrgicas incluem:

✔️ Abdominal

✔️ Vaginal

✔️ Laparoscópica

✔️ Robótica

A escolha depende das características da paciente, da doença e da experiência da equipe cirúrgica (ACOG Committee Opinion No. 701, 2017).

🔬 Fisiopatologia: por que algumas doenças levam à histerectomia?

A necessidade da histerectomia decorre da incapacidade do útero de manter sua função normal devido a alterações estruturais ou funcionais (Williams Gynecology, 2024).

Miomatose uterina

Os leiomiomas são tumores benignos originados do músculo liso do miométrio, altamente dependentes de estrogênio e progesterona. Seu crescimento provoca:

  • aumento do volume uterino;
  • sangramento uterino anormal;
  • dor pélvica;
  • infertilidade;
  • sintomas compressivos sobre bexiga e intestino.

Quando o tratamento clínico falha ou os sintomas tornam-se incapacitantes, a histerectomia oferece tratamento definitivo (ACOG Practice Bulletin No. 228, 2021; FEBRASGO – Mioma Uterino, 2021).

Adenomiose

Na adenomiose ocorre a presença de tecido endometrial dentro do miométrio, desencadeando:

  • inflamação crônica;
  • hipertrofia do músculo uterino;
  • aumento uterino difuso;
  • dismenorreia intensa;
  • sangramento uterino anormal.

Nos casos refratários, a retirada do útero elimina definitivamente a fonte da doença (ESHRE Guideline: Endometriosis, 2022; Williams Gynecology, 2024).

Prolapso uterino

A perda da sustentação dos músculos do assoalho pélvico leva à descida do útero através da vagina.

Nos graus avançados, a histerectomia vaginal associada à correção do assoalho pélvico pode ser indicada (Berek & Novak’s Gynecology, 2020).

Neoplasias ginecológicas

Nos cânceres de:

  • colo uterino;
  • endométrio;
  • ovário;
  • algumas doenças trofoblásticas persistentes,

a retirada do útero representa parte fundamental do tratamento oncológico, buscando controle local e aumento da sobrevida (Berek & Novak’s Gynecology, 2020; Williams Gynecology, 2024).

💊 Existe tratamento medicamentoso antes da cirurgia?

Sim. Sempre que possível, inicia-se tratamento conservador.

Dependendo da doença, podem ser utilizados:

Sangramento uterino anormal
  • Anticoncepcionais hormonais
  • DIU liberador de levonorgestrel
  • Progestagênios
  • Ácido tranexâmico
  • Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs)

(FEBRASGO – Sangramento Uterino Anormal, 2021; ACOG, 2021).

Miomas
  • Agonistas do GnRH (redução temporária do volume uterino)
  • Antagonistas do GnRH em casos selecionados
  • Moduladores hormonais conforme protocolos vigentes

(ACOG Practice Bulletin No. 228, 2021).

Adenomiose
  • Progestagênios
  • SIU-LNG
  • Anticoncepcionais combinados
  • Agonistas do GnRH

(ESHRE Guideline: Endometriosis, 2022).

Entretanto, quando os sintomas persistem ou há doença avançada, a cirurgia passa a ser a melhor alternativa.

🔪 Principais indicações cirúrgicas

A histerectomia está indicada principalmente quando:

✅ Miomas volumosos ou sintomáticos

✅ Sangramento uterino refratário ao tratamento clínico

✅ Adenomiose grave

✅ Endometriose profunda com comprometimento uterino

✅ Prolapso uterino avançado

✅ Câncer do colo do útero

✅ Câncer de endométrio

✅ Algumas neoplasias ovarianas

✅ Hemorragia obstétrica sem controle (situação de emergência)

(ACOG, 2021; FEBRASGO, 2021; Berek & Novak’s Gynecology, 2020).

⚠️ Possíveis complicações

Embora seja considerada uma cirurgia segura, podem ocorrer:

  • sangramento;
  • infecção;
  • tromboembolismo venoso;
  • lesão de ureteres;
  • lesão vesical;
  • lesão intestinal;
  • deiscência da ferida operatória.

A prevenção inclui antibioticoprofilaxia, tromboprofilaxia quando indicada e técnica cirúrgica adequada (Sabiston Textbook of Surgery, 2022; Williams Gynecology, 2024).

📈 Prognóstico

O prognóstico costuma ser excelente nas doenças benignas.

Após a recuperação:

  • desaparece o sangramento uterino;
  • melhora significativa da dor pélvica;
  • resolução dos sintomas compressivos;
  • melhora importante da qualidade de vida.

Nos casos oncológicos, o prognóstico depende principalmente do:

  • tipo histológico;
  • estadiamento;
  • presença de metástases;
  • resposta ao tratamento complementar (radioterapia e/ou quimioterapia).

Quando realizada por indicação adequada e em tempo oportuno, a histerectomia continua sendo uma das intervenções mais eficazes da ginecologia moderna (Berek & Novak’s Gynecology, 2020; Williams Gynecology, 2024).

📚 Referências

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Choosing the Route of Hysterectomy for Benign Disease. Committee Opinion No. 701. Obstet Gynecol. 2017;129:e155-e159.
  2. American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Management of Symptomatic Uterine Leiomyomas.Practice Bulletin No. 228. Obstet Gynecol. 2021;137:e100-e115.
  3. European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE). ESHRE Guideline: Endometriosis. 2022.
  4. Berek JS. Berek & Novak’s Gynecology. 16th ed. Wolters Kluwer; 2020.
  5. Hoffman BL, Schorge JO, Halvorson LM, Hamid CA, Corton MM. Williams Gynecology. 5th ed. McGraw-Hill Education; 2024.
  6. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Protocolos FEBRASGO: Mioma Uterino. 2021.
  7. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Protocolos FEBRASGO: Sangramento Uterino Anormal. 2021.

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