
“Doutor, é tudo isso mesmo necessário?”
Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório e no pronto atendimento.
A impressão de excesso muitas vezes existe.
Mas, na prática, o pedido de exames envolve probabilidade clínica, segurança do paciente, responsabilidade legal e tomada de decisão sob incerteza.
Medicina não é matemática exata.
É gestão de risco.
🔎 Medicina baseada em probabilidade
O diagnóstico raramente é 100% evidente.
Sintomas como dor abdominal, tontura ou febre são inespecíficos.
Exames ajudam a:
- Confirmar hipóteses
- Excluir diagnósticos potencialmente graves
- Estratificar risco
- Definir conduta com maior segurança
⚖️ Segurança do paciente
Muitas vezes o exame não é para “encontrar algo”,
mas para garantir que não estamos deixando passar algo grave.
Exemplo:
- Dor torácica → descartar IAM
- Cefaleia súbita → excluir hemorragia subaracnoidea
- Febre + instabilidade → avaliar sepse
📊 Medicina defensiva
A judicialização da medicina influencia a prática clínica.
Estudos mostram que parte significativa dos médicos admite solicitar exames adicionais por receio de litígio.
⏱ Contexto do pronto atendimento
No PA não há seguimento longitudinal.
Sem reavaliação ambulatorial garantida, o exame torna-se ferramenta de segurança diagnóstica.
💰 Mas atenção: excesso também é problema
Exames desnecessários:
- Aumentam custos
- Geram achados incidentais
- Podem levar a cascatas diagnósticas
- Exponham o paciente a riscos (radiação, contrastes, intervenções)
A boa medicina está no equilíbrio entre clínica e tecnologia.
🎯 Reflexão final
Pedir exame não é fraqueza clínica.
Mas substituir raciocínio clínico por exame é um erro.
Antes de solicitar, vale a pergunta-chave:
👉 Esse exame vai mudar minha conduta?
📚 Referências
- Studdert DM et al. Defensive medicine among high-risk specialist physicians in a volatile malpractice environment. JAMA. 2005.
- Kanzaria HK et al. Emergency physician perceptions of medically unnecessary advanced diagnostic imaging. Acad Emerg Med. 2015.
- Choosing Wisely Campaign. ABIM Foundation.
- Morgan DJ et al. The cost of defensive medicine. JAMA Intern Med. 2019.
- Hoffmann TC, Del Mar C. Patients’ expectations of tests and treatments. Med J Aust. 2015.
