🫁 ASMA e DPOC: Como diferenciar, diagnosticar e tratar

As doenças respiratórias obstrutivas estão entre os temas essenciais da formação médica. A asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) podem apresentar dispneia, tosse e sibilância, mas diferem quanto à evolução clínica, aos mecanismos fisiopatológicos e às estratégias terapêuticas.

Durante o internato de Clínica Médica, o desafio é reconhecer os padrões clínicos, confirmar o diagnóstico, iniciar o tratamento adequado e identificar rapidamente os pacientes com exacerbações graves.

1. 🔎 Asma ou DPOC: quais diferenças observar?

Característica🩵 Asma💚 DPOC
Início habitualFrequentemente na infância, mas pode surgir em adultosGeralmente após os 40 anos
SintomasVariáveis, com períodos de melhora e pioraDispneia frequentemente progressiva
Padrão clínicoSintomas noturnos e desencadeados por alérgenos, exercício ou irritantesTosse, expectoração e limitação progressiva aos esforços
Fatores associadosAtopia, rinite, eczema e história familiarTabagismo, exposição à biomassa e agentes ocupacionais
Obstrução ao fluxo aéreoVariável ao longo do tempoPersistente, podendo apresentar resposta ao broncodilatador
Tratamento de baseTerapia contendo corticoide inalatórioBroncodilatadores de longa ação, conforme sintomas e risco de exacerbações

💡 Ponto-chave: a resposta ao broncodilatador, isoladamente, não diferencia asma de DPOC. As duas doenças também podem coexistir no mesmo paciente.

2. 📊 Espirometria: o exame que orienta o diagnóstico

🩵 Na asma

O diagnóstico exige sintomas respiratórios variáveis associados a evidências de limitação variável ao fluxo expiratório.

Essa variabilidade pode ser demonstrada pela resposta ao broncodilatador, por medidas seriadas do pico de fluxo expiratório ou por outros testes, conforme a indicação.

⚠️ Atenção: uma espirometria normal fora da crise não exclui asma. Se a suspeita clínica permanecer elevada, pode ser necessário repetir o exame ou realizar investigação complementar.

💚 Na DPOC

O diagnóstico é sustentado por sintomas respiratórios e exposição a fatores de risco, associado à relação VEF₁/CVF inferior a 0,70 após o broncodilatador, conforme o critério GOLD.

O VEF₁, expresso como percentual do valor previsto, ajuda a graduar a obstrução. Entretanto, a escolha do tratamento também depende dos sintomas e do histórico de exacerbações.

3. 🏷️ Classificação GOLD da DPOC: como interpretar?

A classificação da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) ajuda a padronizar a avaliação da DPOC. Para o internato, é essencial distinguir o grau de obstrução pulmonar na espirometria da classificação clínica utilizada para orientar o tratamento inicial.

🫁 GOLD 1–4: grau de obstrução espirométrica

Após confirmar a obstrução persistente ao fluxo aéreo, avalia-se o VEF₁ pós-broncodilatador em relação ao valor previsto.

ClassificaçãoVEF₁ (% do previsto)Grau de obstrução
🟢 GOLD 1≥ 80%Leve
🟡 GOLD 250% a < 80%Moderado
🟠 GOLD 330% a < 50%Grave
🔴 GOLD 4< 30%Muito grave

Para que serve? Essa classificação quantifica a limitação ao fluxo aéreo e contribui para a avaliação prognóstica e o acompanhamento funcional. Não define, isoladamente, a gravidade clínica nem determina sozinha o tratamento.

🩺 GOLD A, B e E: sintomas e exacerbações

Essa classificação complementa a espirometria e ajuda a orientar a escolha inicial do tratamento farmacológico.

GrupoCaracterísticas principaisEstratégia farmacológica inicial habitual
🟢 APoucos sintomas e baixo risco de exacerbaçõesBroncodilatador conforme a necessidade clínica
🟡 BMais sintomas, sem histórico de exacerbações que determine o grupo ELABA + LAMA
🔴 EMaior risco de exacerbaçõesLABA + LAMA; avaliar corticoide inalatório em pacientes selecionados

Para avaliar os sintomas, podem ser utilizadas a escala de dispneia mMRC e o questionário CAT/CAAT. O histórico de exacerbações no último ano também é essencial.

Na escolha do tratamento, deve-se considerar a contagem de eosinófilos no sangue e a possibilidade de asma concomitante. O corticoide inalatório não deve ser acrescentado automaticamente a todos os pacientes com DPOC.

💡 Exemplo prático para o internato

Paciente com histórico de tabagismo, dispneia aos esforços e espirometria mostrando VEF₁/CVF pós-broncodilatador de 0,60 e VEF₁ de 65% do previsto.

  • Diagnóstico funcional: obstrução persistente compatível com DPOC, considerando o contexto clínico.
  • Grau espirométrico: GOLD 2, pois o VEF₁ está entre 50% e 79% do previsto.
  • Grupo clínico: A, B ou E — ainda é necessário avaliar a intensidade dos sintomas e o histórico de exacerbações.

📌 Para memorizar: GOLD 1–4 classifica o grau de obstrução espirométrica; GOLD A, B e E orienta a escolha inicial do tratamento conforme sintomas e exacerbações.

4. 💊 Tratamento da asma: controlar a inflamação

O tratamento da asma deve contemplar o componente inflamatório, e não apenas aliviar a broncoconstrição.

As recomendações da Global Initiative for Asthma (GINA) priorizam esquemas que contenham corticoide inalatório (ICS).

Tratamento de manutenção em adultos e adolescentes

  • Passos 1–2: ICS-formoterol em baixa dose, conforme necessidade, na estratégia recomendada pela GINA.
  • Passo 3: ICS-formoterol em baixa dose como manutenção e alívio — estratégia MART.
  • Passo 4: ICS-formoterol em dose média como manutenção e alívio, com reavaliação do controle.
  • Passo 5: avaliar fatores associados, fenótipo inflamatório, necessidade de adicionar LAMA e elegibilidade para tratamento biológico, preferencialmente com avaliação especializada.

📌 Pontos importantes:

  • Todo paciente com asma deve receber uma estratégia que contenha corticoide inalatório.
  • O salbutamol isolado não é recomendado como tratamento habitual exclusivo.
  • Antes de aumentar a dose, verifique adesão, técnica inalatória, exposição a gatilhos e comorbidades.

A dose e o número máximo de inalações dependem da formulação e do dispositivo utilizados; devem seguir a prescrição e as recomendações específicas do produto.

5. 🚨 Crise de asma: reconheça os sinais de gravidade

Na avaliação inicial, observe a capacidade de falar, a frequência respiratória, a saturação de oxigênio, o uso da musculatura acessória e o nível de consciência.

⚠️ Sinais de alerta

  • 🗣️ Dificuldade para falar frases completas.
  • 🫁 Uso importante da musculatura acessória.
  • 📉 Hipoxemia.
  • 😰 Agitação intensa ou exaustão.
  • 🧠 Sonolência ou confusão.
  • 🚨 Tórax silencioso, com redução acentuada dos sons respiratórios.

Atenção: sonolência, confusão e tórax silencioso são sinais de possível insuficiência respiratória ameaçadora à vida.

Conduta inicial no adulto

  1. 💨 Salbutamol inalatório: geralmente 4–10 jatos de 100 microgramas por aerossol dosimetrado com espaçador, repetidos a cada 20 minutos na primeira hora, conforme gravidade e resposta.
  2. 💨 Ipratrópio: associar nas crises graves, conforme protocolo local.
  3. 💊 Corticoide sistêmico: prednisona ou prednisolona, geralmente 40–50 mg por via oral ao dia, por 5–7 dias em adultos, quando indicada.
  4. 🫧 Oxigênio: administrar se houver hipoxemia, titulando para o alvo recomendado; na maioria dos adultos com crise aguda, a GINA recomenda saturação de 93–95%.
  5. 💉 Sulfato de magnésio intravenoso: considerar 2 g, geralmente em 20 minutos, em crise grave sem resposta satisfatória ao tratamento inicial, sob monitorização.

As doses acima são referências usuais para adultos e não substituem a avaliação individual, os protocolos institucionais ou a prescrição médica.

6. 💚 Tratamento da DPOC: como escolher?

Na DPOC, a escolha do tratamento deve considerar sintomas, exacerbações, função pulmonar e características individuais.

  • Grupo A: broncodilatador conforme a necessidade clínica.
  • Grupo B: geralmente LABA + LAMA.
  • Grupo E: geralmente LABA + LAMA; avaliar a inclusão de corticoide inalatório conforme os eosinófilos, o histórico de exacerbações e a presença de asma concomitante.

Quando considerar terapia tripla?

Em pacientes selecionados, pode-se considerar LABA + LAMA + ICS, sobretudo quando há exacerbações recorrentes e maior probabilidade de benefício com corticoide inalatório.

Outras medidas essenciais incluem:

  • 🚭 Cessação do tabagismo.
  • 💉 Vacinação conforme idade, comorbidades e recomendações vigentes.
  • 🏃 Reabilitação pulmonar quando indicada.
  • 💨 Revisão da técnica inalatória e da adesão.
  • 🩺 Acompanhamento clínico e tratamento das comorbidades.

A oxigenoterapia domiciliar de longa duração é indicada em pacientes selecionados com hipoxemia crônica grave documentada, e não apenas por apresentar dispneia.

7. 🚨 Exacerbação da DPOC: tratamento prático

Suspeite de exacerbação diante de piora aguda da dispneia, aumento do volume do escarro ou mudança para escarro purulento.

A avaliação deve investigar a gravidade e possíveis diagnósticos associados, como pneumonia, insuficiência cardíaca, tromboembolismo pulmonar e pneumotórax.

Principais medidas terapêuticas

1. 💨 Broncodilatadores de ação rápida

Salbutamol, associado ou não a ipratrópio, conforme a gravidade e a resposta clínica.

2. 💊 Corticoide sistêmico

A referência usual para adultos é prednisona 40 mg por via oral uma vez ao dia, por 5 dias, salvo contraindicações ou necessidade de individualização.

3. 🦠 Antibióticos quando indicados

Considerar principalmente quando há aumento da purulência do escarro associado a outros sintomas cardinais, ou quando a exacerbação exige ventilação mecânica.

4. 🫧 Oxigenoterapia controlada

Em pacientes com risco de retenção de CO₂, o alvo inicial habitual é uma saturação de 88–92%, com reavaliação clínica e gasométrica conforme a necessidade.

5. 🫁 Ventilação não invasiva

Considerar diante de insuficiência respiratória hipercápnica com acidose respiratória, geralmente com pH ≤ 7,35 e PaCO₂ elevada, desde que não existam contraindicações e que o paciente possa ser monitorizado adequadamente.

⚠️ Instabilidade hemodinâmica, rebaixamento do nível de consciência, incapacidade de proteger a via aérea ou falha do tratamento exigem avaliação imediata para suporte ventilatório avançado.

8. 🧪 Gasometria arterial: quando solicitar?

A gasometria não é necessária em toda exacerbação, mas pode ser importante quando há suspeita de insuficiência respiratória, alteração do nível de consciência, hipoxemia relevante ou retenção de CO₂.

Na DPOC agudizada, a combinação de pH ≤ 7,35 e PaCO₂ elevada sugere acidose respiratória hipercápnica e pode apoiar a indicação de ventilação não invasiva, conforme o quadro clínico.

9. 🎯 O que não esquecer no internato?

🩵 Asma: sintomas variáveis e evidência de limitação variável ao fluxo aéreo; uma espirometria normal não exclui a doença.

💚 DPOC: sintomas e exposição a fatores de risco, com confirmação espirométrica de obstrução persistente.

📊 GOLD 1–4: classifica a obstrução pelo VEF₁ pós-broncodilatador.

🏷️ GOLD A, B e E: orienta a escolha inicial do tratamento com base nos sintomas e nas exacerbações.

💊 Asma: priorizar tratamento contendo corticoide inalatório; evitar SABA isolado como tratamento habitual.

💨 DPOC: considerar sintomas, exacerbações e eosinófilos para individualizar a terapia.

🚨 Crise grave de asma: sonolência, confusão ou tórax silencioso são sinais de emergência.

🫁 DPOC agudizada: avaliar retenção de CO₂, titular o oxigênio e considerar ventilação não invasiva quando houver indicação.

Conclusão

O manejo de asma e DPOC exige integração entre história clínica, exame físico, espirometria e avaliação do risco de exacerbações. No internato, compreender a classificação GOLD, selecionar o tratamento adequado e reconhecer sinais de gravidade são competências fundamentais para a segurança do paciente.

Referências

  1. GLOBAL INITIATIVE FOR ASTHMA (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention. Atualização 2026.
  2. GLOBAL INITIATIVE FOR CHRONIC OBSTRUCTIVE LUNG DISEASE (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of COPD. Relatório 2026.

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