📋 CASO CLÍNICO
Homem, 52 anos, procura a UBS após aferir pressão elevada em casa.
Na consulta:
PA: 180 × 110 mmHg
FC: 82 bpm
SatO₂: 98%
Paciente consciente, orientado e sem desconforto respiratório.
Nega:
- dor torácica;
- dispneia;
- déficit neurológico;
- alteração visual aguda;
- confusão mental;
- síncope.
E agora?

1️⃣ PRIMEIRO: CONFIRME A PRESSÃO
Antes de tomar qualquer decisão:
➡️ repouso por alguns minutos;
➡️ paciente sentado, costas apoiadas e pés no chão;
➡️ braço apoiado na altura do coração;
➡️ manguito adequado;
➡️ repetir a medida.
Uma PA ≥180/110 mmHg merece avaliação médica imediata, mas o diagnóstico de emergência depende da presença de lesão aguda de órgão-alvo, e não apenas do número da pressão.
2️⃣ PROCURE LESÃO AGUDA DE ÓRGÃO-ALVO
Pergunte e examine:
🧠 Neurológico
- déficit focal?
- alteração do nível de consciência?
- convulsão?
- confusão?
❤️ Cardiovascular
- dor torácica?
- sinais de síndrome coronariana?
- dissecção de aorta?
- insuficiência cardíaca aguda?
🫁 Pulmonar
- dispneia importante?
- edema agudo de pulmão?
👁️
- alteração visual aguda?
- suspeita de retinopatia hipertensiva grave?
🩺 Renal
- oligúria?
- alteração renal aguda?
3️⃣ SE HÁ LESÃO AGUDA → 🚨 EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA
Aqui muda tudo.
Não é caso para simplesmente dar um comprimido e mandar para casa.
CONDUTA
➡️ estabilização inicial;
➡️ monitorização;
➡️ acesso venoso;
➡️ investigação direcionada do órgão-alvo;
➡️ encaminhamento imediato para serviço de emergência/hospital.
O tratamento é feito com anti-hipertensivos intravenosos tituláveis, escolhidos conforme a condição associada. O PCDT brasileiro cita, entre outros cenários, nitroprussiato de sódio para diversas emergências, mas ressalta que a escolha depende da condição clínica específica.
⚠️ NÃO FAÇA
❌ tentar normalizar a PA rapidamente;
❌ usar uma sequência de medicamentos orais para “derrubar” a pressão;
❌ atrasar encaminhamento diante de lesão aguda de órgão-alvo.
4️⃣ SE NÃO HÁ LESÃO AGUDA → NÃO É EMERGÊNCIA HIPERTENSIVA
Esse é o grande aprendizado do caso.
Se o paciente está estável e não apresenta sinais de lesão aguda de órgão-alvo:
➡️ não há indicação de redução abrupta da PA;
➡️ não há necessidade de anti-hipertensivo intravenoso apenas pelo valor da PA;
➡️ deve-se avaliar o diagnóstico, risco cardiovascular e necessidade de início ou intensificação do tratamento.
O PCDT de HAS do Ministério da Saúde recomenda avaliação médica imediata para PA ≥160/100 mmHg e considera PA ≥180/110 mmHg uma situação em que o diagnóstico pode ser estabelecido em uma única consulta, após avaliação adequada.
5️⃣ E QUAL MEDICAÇÃO POSSO INICIAR?
Se, após avaliação, for confirmado quadro de hipertensão arterial sem lesão aguda de órgão-alvo, a escolha deve considerar risco cardiovascular, comorbidades, função renal, eletrólitos e tratamento prévio.
No SUS, entre as opções disponíveis estão:
💊 IECA
Captopril: 25 mg VO, com ajuste posterior conforme resposta e tolerabilidade.
💊 BRA
Losartana: 50 mg VO, podendo ser titulada conforme resposta clínica.
💊 Bloqueador de canal de cálcio
Anlodipino: 5 mg VO, com possibilidade de ajuste conforme resposta.
💊 Diurético tiazídico
Hidroclorotiazida: 12,5–25 mg/dia.
Esses medicamentos constam entre as opções disponibilizadas pelo SUS para hipertensão.
Importante: a escolha do fármaco e da dose inicial deve ser individualizada; não é adequado transformar uma PA isolada em uma prescrição automática.
6️⃣ E O CAPTOPRIL SUBLINGUAL?
⚠️ PEGADINHA!
Não devemos transformar o captopril sublingual em uma rotina para qualquer paciente com PA muito elevada.
O objetivo, na ausência de emergência hipertensiva, não é normalizar a pressão imediatamente.
A redução deve ser gradual e segura, evitando hipotensão e hipoperfusão.
7️⃣ QUANDO ENCAMINHAR?
🚑 ENCAMINHAMENTO IMEDIATO
Se houver:
PA muito elevada + suspeita de lesão aguda de órgão-alvo
→ serviço de emergência/hospital.
Exemplos:
🧠 AVC/encefalopatia hipertensiva
❤️ síndrome coronariana aguda
🫀 dissecção aguda de aorta
🫁 edema agudo de pulmão
👁️ lesão ocular grave associada
🩺 lesão renal aguda relacionada à hipertensão
O tratamento das emergências deve ocorrer em ambiente apropriado e depende do órgão-alvo acometido.
🏥 SEM LESÃO AGUDA
Se o paciente estiver estável:
→ manejo ambulatorial/APS;
→ iniciar ou ajustar tratamento conforme avaliação;
→ orientar medidas de estilo de vida;
→ programar retorno próximo para reavaliação da PA e adesão.
O acompanhamento longitudinal da hipertensão faz parte do cuidado na Atenção Primária.

🔑 PONTO-CHAVE DOCTOR NEWS
O valor da PA não define sozinho uma emergência hipertensiva.
PA muito elevada + lesão aguda de órgão-alvo = emergência.
PA muito elevada sem lesão aguda = avaliação, tratamento e redução gradual.
